Vi um lobisomem! Um caso de licantropia

Davilson Silva-

Já dizia o poeta Murilo Mendes: “O invisível não é irreal, o real é que não é visto”. 

Alguém já lhe disse ter visto um lobisomem? Ou você já deu de cara com ele? E se eu lhe disser que vi um? Quem me conhece de perto sabe que não sou nada chegado a fantasiar coisas nem propenso a sensacionalismo, tampouco a histórias da carochinha. E quanto à licantropia? Leu ou ouviu algo a respeito? Antes, é claro, vamos ao fato ocorrido no ano de 1959, pouco a pouco ao cair da noite de um típico inverno paulistano, quando eu residia num bairro da zona leste da cidade de São Paulo, de nome Vila Formosa.  

Zeus transformando Lyacon em um lobo, gravura de Hendrik Goltzius
Brincávamos na rua, eu e mais alguns meninos da vizinhança, a jogar bolinhas de gude, bem em frente da casa de dois daqueles que comigo tomavam parte na brincadeira, filhos de uma senhora chamada dona Sônia. Ficávamos ali até a mãe de cada um pedir que entrasse (meninos e meninas dormiam cedo naquele tempo). Eu, porém, permaneci um pouco mais, livre de preocupação. 

Concentrado, sozinho naquele entretenimento infantil, eis senão quando a certa distância, vindo não sei de onde, apareceu um estranho animal. Célere, ele descia o ponto mais alto do declive da rua em desabalada carreira, tendo ao seu encalço alguns vira-latas dos arredores; pelo menos, um daqueles cães vi que era da casa de uma linda garota, moradora daquela rua, chamada Rosa.  

Um lobisomem?! O bicho era bem maior que seus perseguidores. A despeito de tamanho impacto, notei-lhe a expressão quase humana, os olhos salientes e avermelhados quais os de um espavorido insano. À distância, deu para ver-lhe o pelo espesso, do griséu ao negro, e a bonita pelugem amarelada no peito. 

Se a bizarra criatura estava cheia de pavor, imagine este que vos narra! Tudo sucedeu depressa. Infelizmente, não vi ninguém que pudesse testemunhar o insólito acontecimento. Nem sei como pulara a bonita cerca de madeira da casa de dona Sônia, toda pintada de branco; e o portão só estava encostado! Escondido num canto, de cócoras, trêmulo e imóvel, esperei pelo pior.  

De súbito, sequer um latido. Silêncio absoluto. Depois de respirar fundo e adquirir coragem, fui ver por que a criatura não passara em frente da casa. Ora! Os vira-latas e o bicho só podiam ter passado para o terreno baldio — pensei —, um espaço em forma de “u” entre a residência da menina e a da mãe de meus amiguinhos, sendo que a face da casa de fundo dava para outra rua. Novo detalhe: entre a casa de d. Sônia e a de fundo havia estreitíssima passagem para outro terreno baldio, local onde os meninos fizeram dali um campinho de futebol. Onde se meteram os vira-latas, a apavorante e apavorada criatura, se naquela estreita passagem só podia transpô-la apenas um garoto magro de cada vez, e de lado?   

Decorreram-se os anos, conheci o Espiritismo. Vindo à memória aqueles incríveis instantes da infância, resolvi saber através da investigação, do estudo, os porquês do extraordinário acontecimento. Que visão impressionante aquela! 

Lobisomem através dos tempos 


Anúbis, deus egípcio antigo
dos mortos e moribundos
Teria eu realmente visto o lendário e antigo personagem mítico-sobrenatural? Se não, vejamos, remontemos às antigas civilizações. Acreditava-se na Antiguidade que homens podiam se transformar em lobos. Egípcios adoravam Anúbis, ou Hermanúbis, deus com cabeça de chacal; gregos reverenciavam o Lobo-Zeus; romanos criam na existência de outro canino, Cérbero, para eles, o “guardião do Inferno”; na Idade Média, falava-se de feiticeiros que também se transformavam em lobos.  

Cá entre nós: você acredita mesmo que um homem pode se transformar em um animal em noite de lua cheia conforme apresentam novelas e películas hollywoodianas da rentável indústria exportadora de violência e terror? Penso que você, que nos honra com a sua leitura, “não compraria gato por lebre”, não se impressionaria com superstições do imaginário popular.  

Entretanto, há certa enfermidade que mexe com a imaginação e causa repulsa, preconceito: a hipertricose. De origem genética, a hipertricose apresenta curioso sintoma: o de crescimento de pelos em todo o corpo. Segundo a Medicina, essa doença provoca mudanças no organismo e está visceralmente ligada a um transtorno nas glândulas suprarrenais. Doença muito antiga, confundem portadores da hipertricose com licantropos.

Licantropos, ou licomaníacos, “alienados”, para a Ciência, sofrem de licantropia. Os psiquiatras veem apenas uma doença mental cujos pacientes se julgam um lobo, ao portar-se como tal ou outro bicho (zoantropia). É comum zoantropos serem acometidos de licantropia, ou licomania. Diga-se a propósito, assim como há licantropos, há indivíduos que sofrem de outra curiosa psicose: a teomania, ou seja, tendência que suscita fanatismo religioso, ou psicopatia em que o paciente se acredita inspirado, ou possuído, por divindades, por Jeová, o deus bíblico, por Cristo, considerado deus pelos cristãos.

Hipertricose (também conhecida como a síndrome do
lobisomem) é um termo médico usado para descrever
uma doença extremamente rara que causa o
excesso de  pelos no corpo humano, exceto
na palma das mãos e na  planta dos pés.
Já dizia o poeta Murilo Mendes: “O invisível não é irreal, o real é que não é visto”. O Espiritismo não tapa o sol com uma moeda, ou, se o desejar, “com a peneira”, e não transige com superstições. Os ensinamentos espíritas devassaram o invisível, e casos notáveis, ditos enigmáticos, postos no âmbito do fantástico, do sobre-humano, da milagraria; ele prova por a mais b que todos esses fatos se explicam, por mais estranhos que nos pareçam.

Essas ocorrências pedem, sim, esclarecimentos científicos, pois, se acontecem, logo fazem parte da Natureza, pertencem à Criação.1 Tudo o que se recusou como extraordinário, acima do saber humano, agora se percebe por meios irrecusáveis. Por isso, o Espiritismo, ciência sublime, acima de tudo, seus pesquisadores nunca deixaram de empregar critérios científicos. A fé espírita, não se resume à fé cega, a que, por falta de discernimento, tanto pode admitir a mentira quanto a verdade.  

Obsessor e obsidiado 

De volta ao dito cujo, uma vidência ou mesmo, quem sabe, um caso de aparição tangível, ou materialização de alguma Entidade sofredora? Não posso garantir. Veja, na oportunidade, eu era apenas um garoto de dez anos. Poderia ter sido, sim, um encarnado cujo perispírito perdeu o característico, por influência de um desencarnado, um Espírito obsessor, apresentando aquele aspecto físico, profundamente transfigurado numa forma animalesca. Aventemos ainda a possibilidade de ter sido o próprio obsessor nas mesmas condições, com idênticas características visíveis, palpáveis. No entanto, de uma coisa pode estar certo: homem nenhum se transforma em lobo, em vampiro, em bode, em porco, em mula-sem-cabeça ou no que quer que seja em noite de lua cheia ou em qualquer noite.

A licantropia pode acontecer a quem faz o mal ao próximo.
A licantropia pode acontecer a quem faz o mal ao próximo. Possível candidato, a presa fácil de si mesmo, e, por conseguinte, de Entidades inimigas, será aquele que se perverteu no crime; o que abusa da inteligência; quem mercantiliza o próprio corpo, disseminando pornografias; quem faz uso de bebidas alcoólicas, maconha, crack, cocaína etc.2

Há cura? Há! Mas somente para os que a desejam. A cura acontece através da prática da Lei de Amor e Caridade, ensinada e exemplificada por Mestre Jesus, e não por meio de exorcismos, de rezas decoradas, repetitivas, mediante ostentação em ato público ou particular.3 A cura é discreta, sem alarde, processo lento, com auxílio de passes e irradiações amorosas, a induzir o obsessor, ou obsessores, à prática do bem, sobretudo sugerindo ao obsidiado a evangelizar-se, a reformar-se, tornando-se moralmente melhor.

O Espírito e seu corpo fluídico, o perispírito, nunca retrogradam (não confundir zoantropia com a metempsicose dos budistas e hinduístas); o perispírito é que degrada como já vimos. Não há nada de errado com caninos do tipo canis lupus (lobos), com felídeos, do tipo felis cattus domesticus de cor preta (gatos pretos), com quirópteros hematófagos (vampiros), com aves estrigiformes (corujas) e demais criaturas aladas como corvídeos (gralhas e corvos), com catatidiformes (urubus). Todos animais são dignos de nossa consideração e amor, todos somos filhos de Deus, e para Ele caminhamos.  

Licantropia, em outras palavras, trata-se de um estado mórbido-mental, causado por um obsessor (um ou mais supostos inimigos). Por sugestão hipnótica, ele pode persuadir alguém (suposta vítima), mesmo não pertencendo mais a este mundo, a se transformar, por vingança, num ente animalesco.

O Ser Humano, ser à parte, é deveras curioso! Às vezes, ele desce tão baixo ou pode se elevar tanto! — segundo resposta da questão 592 de O Livro dos Espíritos. Pois é, meu amigo ou minha amiga: se os chamados animais irracionais tivessem consciência moral dos próprios vícios e de todo erro, se cometessem desregramentos, atos de vandalismo, de licenciosidade, certamente haveriam de dizer: “é simplesmente humano” — tal como dizem os que se consideram racionais: “É simplesmente animalesco”.  

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1 KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. Tradução Herculano Pires. 62. ed. São Paulo: Lake — Livraria Allan Kardec Editora, 2001. Capítulo 1.o , item 5, página 39.

2XAVIER, Francisco C. Nos domínios da mediunidade. Pelo Espírito André Luiz. 22. ed. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira (FEB), 1994. Cap. 23, p. 217 e 218.

3KARDEC, Allan. O livro dos espíritos. Tradução Herculano Pires. 62. Ed. São Paulo: Lake — Livraria Allan Kardec Editora, 2001. Cap. 9.o, questão 473 e 474, p. 185.

4Kardec escreveu um artigo na Revista Espírita, Jornal de Estudos Psicológicos, de 1865, s/ed., São Paulo, Editora Cultural Espírita Ltda., s/d, pág. 331, em que analisa interessante caso de licantropia que consta da Bíblia, referente a um antigo rei da Babilônia, uma obsessão grave ou, melhor dizendo, subjugação, termo mais bem apropriado, segundo Kardec. 


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